Memória de Brasília
Gabriela, Brasília e Mercedes


Dedico estas páginas à Gabriela e Mercedes, que nasceram com Brasília e que são, como ela, fruto de um idealismo sem limites

Em Brasília deposito minha confiança pelo mundo novo que ela representa; em Gabriela e Mercedes a fé na juventude de amanhã.

Às três dedico estas linhas, desejando-lhes êxito absoluto na missão que trouxeram a este mundo.
Os Primeiros Dias de Brasília


Vi Brasília nascer e vou contar-lhes tudo o que sei sobre ela desde seus primeiros passos.

Não me guia nenhum espírito de crítica a favor ou contra qualquer teoria ou qualquer pessoa. Só quero fazer-lhes um relato fiel dos dias que tive o privilégio de viver nesta terra de esperança.

Aos meus leitores, saibam que esta é uma história verídica e, se tem defeitos, saibam perdoá-los, porque ela é humana... e nós também somos!



A Viagem


No futuro Distrito Federal era 12 de novembro de 1957. Aquele jipe empoeirado já estava rodando havia um mês e doze dias para alcançar sua meta.

Saiu de Buenos Aires numa ensolarada manhã de primavera transportando um jovem casal, cuja única bagagem poderia ser definida em apenas dois itens: otimismo e visão. O objetivo da viagem era o de chegar a uma cidade ainda inexistente, porém já concretizada em plantas e números: Brasília, que seria a nova capital do Brasil em 21 de abril de 1960 na otimista previsão do então Presidente JUSCELINO KUBITSCHEK.

A essa cidade de sonho se dirigia aquele jipe e na sua frente não existiam obstáculos, pois ele ia guiado pela mesma vontade inquebrantável com que se iria construir a Nova Capital.

E eis que depois de rodar 9.000 km. por todos os tipos de estradas, o jipe ia assomando seu nariz à única estrada esburacada que desembocaria no pequeno núcleo de casas aonde estavam instalando-se os trabalhadores que chegavam, e o qual já tinha um nome: "Núcleo Bandeirante"ou Cidade Livre.


A Chegada


Não era o primeiro veículo que ali chegava, mas sim o primeiro que atravessava as fronteiras de um país irmão para ali se dirigir.

A chegada foi triunfal, porém desoladora.....

Aquele imenso planalto e no meio essas casinhas de madeira todas enfileiradas e cortadas por apenas duas ruas intransitáveis de terra vermelha davam a impressão de algo muito diferente de tudo o que se tinha visto até então.

Não era uma cidade. Nem mesmo um acampamento. Poderia se definir melhor como um cenário de filme "far west", mas com espírito organizado e de trabalho, onde o jipe substituía o cavalo, o candango o "cowboy", e a ferramenta, o revólver empunhado.

Num ponto qualquer deste cenário o jipe deteve sua marcha e o casal mergulhou numa nova vida cujo roteiro seria imprevisível.

Não vou contar as dificuldades desse casal. Seus triunfos e derrotas foram muitos; seus sonhos mais de uma vez acabaram em decepções; seu trabalho foi árduo e sua experiência gloriosa e inesquecível.

Talvez mais adiante, nestas páginas, eles surjam no anonimato e revivam algumas das peripécias pelas quais passaram; mas a partir daqui, como se identificaram perfeitamente com o ambiente que acabamos de descrever, ficarão confundidos com esse grupo tão heterogêneo nas pessoas e tão homogêneo nos ideais que foram os verdadeiros pioneiros de Brasília.

Ficam pois, caracterizados em cada um deles na continuação destas linhas.

As Primeiras Impressões


Como já havia mencionado, o Núcleo Bandeirante tinha duas ruas: a Primeira Avenida ou Avenida Central e a Segunda Avenida. A Avenida Central era a de maior movimento, pois os jipes e caminhões trafegavam incessantemente num vaivém sem fim que envolvia todas as casas e pessoas numa densa nuvem vermelha. Ali não havia diferenciação de cores; a cor era uma só: a cor da poeira, símbolo de uma jornada de trabalho.

Em 1957, existiam no Núcleo Bandeirante e acampamentos de obras adjacentes, 5.000 habitantes que, pela vida intensa de trabalho que levavam e pela movimentação que davam a essas duas ruas, pareciam ser 50.000 pessoas.

Todos circulavam freneticamente, e o faziam com pressa e determinação; ninguém pensava em ocupações que não se relacionassem com seus trabalhos. A única coisa que chamava a atenção naquelas ruas eram as raras figuras femininas vestidas simplesmente com "blue jeans" ( denominação da época) e botas. Este era o uniforme geral, não por imposição de ninguém, mas sim por imperativo das circunstâncias.

Na Avenida Central haviam várias pensões, algumas das quais se auto-denominavam "hotéis".

Um desses hotéis pertencia a um casal de italianos. Os quartos eram tão diminutos que só cabiam duas camas com o espaço suficiente para, entre elas, dar passagem a uma pessoa muito magra.

As roupas podiam ficar em cima da cama e nas janelas, que não eram outra coisa se não um simples basculante de madeira. Ficavam a uma altura tão baixa que, durante o dia, caso uma pessoa tivesse a má idéia de permanecer no quarto, ou ficava no escuro ou se submetia a estar exposto aos olhares de todos os transeuntes.

Entre os quartos havia uma divisão lateral de madeira que tinha a altura necessária para proteger os hóspedes de olhares indiscretos, mas que no entanto, não podia isolar a infinidade de ruídos de todos os demais quartos. Ruídos estes que não respeitavam horários.

Às 3 horas da madrugada um senhor datilografava na sua máquina instalada na cama, que fazia às vezes de escrivaninha. Um motorista de caminhão batia na parede do colega, pois estava na hora de partir. Mais adiante uma criança chorava, e o dono da pedreira já colocava o motor de seu jipe em marcha (que fazia tremer todas as paredes do hotel), pois ainda tinha alguns quilômetros para percorrer e ele mesmo tinha que ir abrindo a estrada.


A Rotina Candanga


O banheiro do hotel era um só para todos. Tanto para homens como para mulheres. O banho consistia em algumas baldeadas de água fria atirada por cima do corpo. Certa vez chegou uma mulher grávida e inocentemente perguntou se poderia arranjar um balde de água quente, ao que a italiana, dona do hotel, respondeu: "toma banho frio, isto lhe fará bem."

Essa situação durou pouco, pois logo foi inaugurado um hotel bem melhor na Segunda Avenida, o qual, comparado aos que havia até então, tomava as dimensões de um palácio. Se chamava Hotel Santos Dumont. Tinha quartos maiores com janelas de vidro, armário e pia em cada um. Para cada conjunto de 15 quartos havia um banheiro para homens e um outro para mulheres. Tinha um restaurante, o que já era uma grande coisa. O café matinal era servido até às 7 h. da manhã e quem chegava depois dessa hora ficava em jejum, pois não acharia nenhum lugar que lhe servisse o precioso combustível para colocar o motor humano em marcha.

As imposições e restrições em Brasília eram tão naturais que uniam as pessoas por vínculos de solidariedade. E assim foi que logo se formou um grupo de amigos no hotel "Santos Dumont", constituído pela "elite" dos pioneiros. Eram pessoas das mais diversas origens, cujas nacionalidades variavam da Áustria à Síria e do Japão ao Canadá. Cada um tinha seu trabalho, seu passado e suas recordações. A única coisa que todos tinham em comum era um ideal pela frente: construir Brasília e vê-la inaugurada como Capital da República.

Logo se formou neste grupo, que a cada dia ia aumentando, um ambiente de grande camaradagem. Às vezes davam a impressão de serem todos hóspedes em alguma casa de campo de um amigo que estava passando férias no estrangeiro.

À noite, na hora do jantar, era o momento de reunião e ali cada qual contava suas façanhas do dia. Prolongava-se, assim, o jantar num animado bate-papo e por vezes surgiam algumas discussões. Quase nunca brigas.

E claro, não faltavam palpites sobre o futuro da cidade e sempre havia os que se mostravam apreensivos. Estes precisavam de uma lição e geralmente acabavam aderindo ante a realidade dos fatos.

À tarde, quando cada um voltava de suas tarefas, era a hora de fazer fila para tomar banho de chuveiro. Era uma questão de honra para qualquer pessoa que se prezasse regressar ao hotel coberta de poeira dos pés à cabeça. No corredor, embrulhados em suas respectivas toalhas, um construtor e seu amigo comerciante não perdiam tempo. O primeiro pergunta:

- "Quantos m³ de areia você pode me entregar amanhã na obra?"
O outro responde:
-"A quantidade não é problema, mas não posso entregar na obra porque meu caminhão ficou atolado."
Eles esqueceram do preço, mas isto era secundário pois o fator principal era o tempo.

Já numa mesa do restaurante, duas pessoas muito preocupadas, procuravam solucionar outro caso:
quebrou uma peça do trator que só poderia ser encontrada em Anápolis. Mas Anápolis ficava a 120 Km e a viagem tinha que ser feita de avião. Às seis e meia da manhã saía um da Vasp.

"Então vamos dormir para pegar esse avião e voltamos à tarde com a peça comprada". E lá foram eles.

Os Pioneiros


Cada pessoa nova que aparecia vinha cercada de mistério nos primeiros dias. Ninguém podia saber o que ela ia fazer porque, geralmente, trazia idéias novas para colocar em prática e, como tinha medo de possíveis concorrentes, não iria, por certo, revelá-las; ou então, estava simplesmente sondando o ambiente mas jamais iria confessá-lo. Geralmente, depois que o recém-chegado iniciava seu trabalho e ficava definido por um tipo de atividade, juntava-se ao grupo e ninguém hesitava em oferecer-lhe sua amizade.

Mais tarde, o restaurante do Hotel Santos Dumont passou às mãos de Mário e Teresa Canevari, um casal de napolitanos que, com bom gosto, soube fazer dele um cantinho agradável e o ponto de reunião social dos pioneiros. De noite, tocavam-se discos tipo "long play" e, quando haviam mulheres presentes, até se dançava.

O Rotary Club de Brasília acabara de ser fundado e reunia-se no restaurante todas as quintas-feiras, dando um toque de civilidade ao hotelzinho de madeira.


A Cidade Livre


O Núcleo Bandeirante também se chamou "Cidade Livre" devido ao fato de que os comerciantes ali instalados tinham direito de uso do terreno sem custos pelo prazo de 3 anos e durante o mesmo período, também não pagavam nenhum imposto. Esse critério era adotado com a idéia de que, em 1960, o Núcleo Bandeirante seria simplesmente extinto com a inauguração de Brasília.

Era, portanto, o paraíso dos comerciantes, que vindos dos quatro cantos do país aumentavam em grande escala dia após dia. Havia pessoas das mais diversas origens; porém, a febre do ouro estava latente em todos. Alguns sem sabê-lo, já eram milionários em potencial e, muitos desses, hoje, nem precisam mais trabalhar.

O comércio na Avenida Central era de uma atividade febril e só fechava as portas a altas horas da noite.

Entre os comerciantes destacava-se um norte americano chamado George Homer, um dos primeiros a chegar, e o primeiro a instalar uma loja de material de construção, a HOMER & MARTIN. Homem de grande coragem e visão, casado com uma enérgica e ativa mulher de negócios, Janet, foi logo abrindo caminho até figurar na primeira linha de fornecedores para as obras de Brasília.

Este é um exemplo dos que, embora não esquecendo a si proprios, contribuíram de fato com a construção da Nova Capital.


Histórias Pitorescas


Para o sistema de propaganda havia um serviço que se utilizava de alto-falantes dispostos em cada extremo da Avenida Central, e que martirizava os ouvidos de todos os habitantes do Núcleo Bandeirante das 7 hs. da manhã às 7 hs da noite. Era uma torrente de anúncios intercalados por algumas músicas caboclas que geralmente levavam dedicatórias como esta: - "de Maria das Dores para seu namorado com todo carinho" -; ou então: - "o Jesuíno dedica esta canção com amor e ternura a sua querida mãe que deixou no Ceará." Às vezes ouviam-se anúncios como: - "O motorista do caminhão número tal avisa que partirá para o Piauí dentro de duas horas. Quem estiver interessado que se dirija à Estação Rodoviária."

Mas o ponto alto na técnica propagandística era sem dúvida um rapaz chamado Jackson, cujo único capital era uma bicicleta dotada de poderosa buzina. Jackson prestava serviços de propaganda, cujos anúncios eram feitos gritando e gesticulando da bicicleta, e se fazendo notar, chamando a atenção de todos com suas constantes buzinadas.

O Jackson era criativo e também confeccionou várias placas de propaganda das firmas que o contrataram, assumindo o compromisso de tratar da manutenção das mesmas. Certo dia ocorreu uma forte tempestade que derrubou todas as placas colocadas por Jackson, e quando seus clientes foram procurá-lo, ele já havia desaparecido para longe montado na sua bicicleta.

Havia também algumas agências de bancos construídas em madeira, pois tudo na Cidade Livre tinha que ser feito em caráter provisório.

O movimento desses bancos logo justificou a abertura de novas agências, e foi-se formando a movimentadíssima zona bancária. Uma pequena "Wall Street"de barracos de madeira. O gerente do banco geralmente morava nos fundos da agência, portanto se algum depositante precisasse fazer uma operação fora do horário ou em dia de feriado era só bater à porta que ele próprio iria atender, talvez de pijama, e com a melhor boa vontade solucionava tudo o que estava ao seu alcance.


Lembranças

É impressionante ver como o sacrifício comum une os seres humanos, chegando ao ponto de facilitar as coisas uns aos outros de uma maneira que seria impossível em condições normais.

Porém, as ambições arrastam os homens com correntes que os aprisionam. É a ânsia pelo poder, a ânsia pela riqueza que, em maior ou menor grau, existia em cada um deles.

E o que foi feito afinal desses generosos pioneiros? Os que progrediram, salvo algumas exceções, ao tornarem-se independentes, foram se dispersando e ficaram tão irreconhecíveis, que eles próprios já esqueceram do simples começo que deveria ser motivo de orgulho. Os outros, mais equilibrados, lembram no silêncio das recordações.......

Ano 1970 - Texto atualizado em 2002 com imagens feitas pelo fotógrafo Ake Borglund - Produção e Acervo de Mercedes Urquiza

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